Elitismo e Personalismo na Dimensão Espírita

O ELITISMO E O PERSONALISMO NA DIMENSÃO ESPÍRITA

- Leonel Varanda -

 

“No Cristianismo encontram-se todas as verdades; são de origem humana os erros que nele se enraizaram”

(O Evangelho Segundo o Espiritismo).

                                 

                     

Tendo ultrapassado o tempo da fé cega, a Doutrina Espírita enseja-nos a possibilidade de estabelecermos uma análise crítica, em torno dos mais variados temas, na discussão de princípios doutrinários, principalmente quando o tema diz respeito à finalidade básica do Espiritismo, cuja proposta é a revivescência do Cristianismo Primitivo.

 

Uma das polêmicas atuais, corporificando tendências do passado, diz respeito ao Elitismo no meio Espírita, e mais especificamente ao Personalismo, atitudes que comprometem as manifestações da prática Espírita, o que nos despertam para a necessidade de um posicionamento fraterno, mas firme e claro, nos auxiliando a compreender essa grave questão doutrinária, no sentido de afastar um perigo que pretende tirar o brilho de uma Doutrina, cuja grandeza está, justamente, em sua simplicidade.

 

Considerada uma prática totalmente estranha e afastada da finalidade básica do Espiritismo, cuja proposta é a revivescência do Cristianismo Primitivo, o elitismo encontra-se contornando o movimento espírita, em diversas manifestações, devendo ser observado um aspecto de destaque, dentro dessa questão, pois que na base dos problemas relacionados à elitização, encontra-se a imagem do personalismo que é sinônimo de vaidade, que, por sua vez, é uma consequência do orgulho e do egoísmo, consideradas, de acordo com o Evangelho Segundo o Espiritismo, duas chagas da humanidade.

 

Mas, apesar do avanço do elitismo, não existe a possibilidade do corpo doutrinário ser alterado, pois os Espíritos superiores apresentaram a Doutrina Espírita com o selo da universalidade e, sobretudo, com o caráter impessoal, ou seja, trata-se de uma Doutrina que, além de estar assentada em bases sólidas e naturais, é de origem divina e encontra-se sob a responsabilidade do Espírito da Verdade, representando, portanto, o pensamento do Cristo, e, por isso mesmo, em termos de conteúdo doutrinário, é inalterável em seus fundamentos, detendo, portanto, a prerrogativa de ser nosso órgão orientador.

 

Esse aspecto valoriza o caráter impessoal da Doutrina, o que, na prática, deveria impedir o aparecimento de práticas estranhas e de pretensos líderes, mesmo que dotados de cultura enciclopédica, com evidências injustificáveis ou endossando atitudes em desacordo com as bases doutrinárias. Entretanto, na prática Espírita, existe a possibilidade, como nos apresenta na atualidade o cenário dos eventos espíritas, sejam eles pagos ou não, do elitismo se manifestar, através de uma das práticas mais detestáveis para a cultura do verdadeiro Cristianismo, ou seja, a evidência pessoal ou o personalismo.

 

E isso tem relação com a expressão prática do Espiritismo, no contexto do movimento espírita, que se caracteriza por um conjunto de atividades que objetivam corporificar, em termos de trabalho e vivência, os princípios fundamentais da Doutrina Espírita, através, basicamente, dos Centros Espíritas. Assim, o movimento espírita pode refletir ou não a Doutrina Espírita, em função da forma que o Espírita imprima ao movimento. Nesse caso, no tocante ao personalismo, a responsabilidade do Espírita fica evidenciada na necessidade de preservação das bases doutrinárias, no sentido de fugir a qualquer tentativa de elitização do movimento.

Nasce dessa consideração, a necessidade imperiosa de se construir uma consciência de que a Doutrina dos Espíritos é a grande fonte de informações a todos os Espíritas, exigindo o estudo e difusão das obras básicas para conhecimento e discernimento do que seja, realmente, uma prática espírita. Com essa atitude relativa ao conhecimento das bases doutrinárias, vivenciada no estudo e na prática espírita, poderemos colocar um dique às manifestações do personalismo, que nos afasta do sentimento sagrado de religiosidade cristã.

 

O personalismo no meio espírita fica caracterizado na importância exagerada da personalidade de líderes e/ou representantes “ilustres” do movimento, os quais costumam se valer, seja da autoridade ou prestígio, para ressaltar, nas vestes do orgulho e do egoísmo, a necessidade do proselitismo para atender a interesses pessoais, seja no campo da vaidade pessoal ou mesmo no campo financeiro, surgindo daí os grandes e luxuosos eventos, totalmente descaracterizados das práticas genuinamente espíritas.

 

Já nos primórdios da codificação do Espiritismo, Allan Kardec fazendo referência aos perigos do egoísmo nas manifestações sociais e, talvez, ao observar a possibilidade de infiltração do personalismo no movimento espírita, registra o pensamento dos Espíritos, em O Livro dos Espíritos, ao tratar da perfeição moral, sobre a necessidade do Espiritismo ser bem compreendido, conforme texto registrado abaixo:

 

“[...] Quando, bem compreendido, se houver identificado com os costumes e as crenças, o Espiritismo transformará os hábitos, os usos, as relações sociais. O egoísmo assenta na importância da personalidade. Ora, o Espiritismo, bem compreendido, repito, mostra as coisas de tão alto que o sentimento da personalidade desaparece, de certo modo, diante da imensidade. Destruindo essa importância, ou, pelo menos, reduzindo-a às suas legítimas proporções, ele necessariamente combate o egoísmo” (Allan Kardec, Pg. 917 de O Livro dos Espíritos)

 

Nesse contexto, passamos a compreender o sentido da valorização e direcionamento da feição religiosa do Espiritismo, notadamente nas terras do Cruzeiro do Sul através da tarefa mediúnica de Francisco Cândido Xavier, porque a única força capaz de vencer a supervalorização da personalidade é o Evangelho de Jesus, plenamente incorporado na mente e no coração dos homens.

 

Infelizmente, o personalismo nas lides espíritas vem se tornando, cada vez mais, uma realidade dentro da Doutrina, com dirigentes, oradores e médiuns procurando os ilusórios holofotes da fama, na ilusória pretensão que o Espiritismo, pouco a pouco, se afaste de sua simplicidade original.

 

Passemos, então, a analisar o conceito de Elitismo para compreendermos suas principais e nocivas manifestações, e, para tanto, iremos consultar as páginas do opúsculo “Jesus, Kardec e o Elitismo”, de autoria do inesquecível confrade Jarbas Varanda, em que ele faz, de maneira simples mais profunda, uma apreciação, basicamente, nos termos seguintes:

 

Podemos identificar o elitismo, como sendo o “modo de ser” que consubstancia ideia, ações ou atitudes daqueles que no grupo social atingiram um nível mais refinado de cultura, de conhecimento, e que se colocam, consciente ou inconscientemente, como ditadores de padrões de comportamento, com base numa certa liderança exercida. Daí, poderemos caracterizar o Elitismo no meio Espírita como sendo aquela tendência para as “práticas formalistas”, de verdadeiras castas intelectuais, ditando padrões exteriores de comportamento aos Espíritas e suas práticas, e, notadamente, distanciando-se do povo. Uma atitude totalmente contrária à proposta original do Espiritismo, cujas bases estão estabelecidas em sua finalidade central que é a revivescência do Cristianismo Primitivo.

 

E, nunca é demais registrar que o Dr. Bezerra de Menezes foi enfático ao afirmar a importância de manter o Espiritismo em sua feição original, isento de práticas elitistas, conforme mensagem recebida por Chico Xavier, e cujo trecho transcrevemos abaixo:

 

É indispensável manter o Espiritismo, qual foi entregue pelos Mensageiros Divinos a Allan Kardec, sem compromissos políticos, sem profissionalismo religioso, sem personalismos deprimentes, sem pruridos de conquista a poderes terrestres transitórios (Bezerra de Menezes, Mensagem Unificação, Psicografada por Chico Xavier em 20.04.1963, na Cidade de Uberaba MG).

 

De forma sutil, o personalismo se caracteriza como uma atitude elitista e contrária à finalidade do Espiritismo, cujas raízes absorvem a seiva da caridade e do ensino gratuito, aliás, uma característica dos valorosos apóstolos da fé Cristã, seja nos tempos apostólicos do Cristianismo nascente, seja no Cristianismo redivivo, através dos exemplos admiráveis de Paulo de Tarso, Bezerra de Menezes, Eurípedes Barsanulfo e, notadamente, de Chico Xavier.

 

A semente do personalismo semeia no coração e na mente de dirigentes, oradores e médiuns espíritas uma suposta condição de superioridade, ou relevância, que não existe na Doutrina Espírita, hoje convocada a restaurar os ensinos de Jesus no clima da humildade, da simplicidade e da solidariedade. A única superioridade legítima é a moral, entretanto, quem possui essa superioridade é adivinhado e não necessita buscar reconhecimento ou visibilidade. A existência do pensamento elitista, nas vestes do personalismo, de exclusão dos mais simples e pobres, na organização de eventos pagos, por exemplo, a pretexto de uma administração eficaz, nada mais realiza do que comprometer a tarefa do Cristo, confundindo os cristãos redivivos, levando Emmanuel a nos advertir, na base de uma sentença inolvidável, e lavrada a caracteres de luz.

 

O apostolado de Allan Kardec é a restauração do Cristianismo simples e claro, em que Jesus procura o povo e o povo encontra Jesus (Emmanuel, Livro: Estude e Viva, psicográfica de Chico Xavier).

 

Um fato significativo e contrário à finalidade do Espiritismo, e que vem avançando no movimento Espírita, é o aparecimento, ainda sutil, dos “profissionais” da oratória espírita, exemplo evidente da existência do personalismo no seio Espírita. Chico Xavier, em entrevista realizada no ano de 1977, já nos alertava da necessidade de evitarmos a elitização do movimento espírita, conforme trecho transcrito abaixo:

 

"É preciso fugir da tendência à "elitização" no seio do movimento espírita. É necessário que os dirigentes espíritas, principalmente os ligados aos órgãos unificadores, compreendam e sintam que o Espiritismo veio para o povo e com ele dialogar. É indispensável que estudemos a Doutrina Espírita junto às massas, que amemos a todos os companheiros, mas, sobretudo, aos espíritas mais humildes, social e intelectualmente falando, e deles nos aproximarmos com real espírito de compreensão e fraternidade. Se não nos precavermos daqui a pouco estaremos em nossas casas espíritas, apenas, falando e explicando o Evangelho de Cristo às pessoas laureadas por títulos acadêmicos ou intelectuais e confrades de posição social mais elevada” (Entrevista de Chico Xavier ao Dr. Jarbas Varanda e registrada na obra Encontros No Tempo)

 

Para diminuir a influência do personalismo, engastado nas teias do orgulho e da vaidade, e como proposta para evitar seu avanço na seara Espírita, o ideal seria a realização de pequenos encontros. Encontros realizados à luz da simplicidade, através do trabalho voluntário e sem a preocupação com o proselitismo, pois é notório que os pequenos encontros permitem uma aproximação fraterna entre os companheiros de ideal, afastam o fantasma do personalismo, possibilitando a participação de confrades de todos os níveis sociais e a redução substancial das despesas, que, se existem, deveriam ser suportadas pelo próprio grupo espírita, responsável pelo evento.

 

Outro fato lamentável é a criação de entidades espíritas classistas, verdadeiras castas de pretensos intelectuais espíritas, que assumem suposta superioridade em função de seu conhecimento acadêmico, como é o caso das associações de médicos espíritas, de magistrados, de “doutores”, enfim, que se colocam como “mordomos infiéis” de um conhecimento que deveria, antes de tudo, ser distribuído ao povo de forma simples e despretensiosa. Essas associações revelam de forma clara a face formalista daqueles que não conseguiram aceitar o Espiritismo nas vestes da simplicidade.

 

Estas castas não conseguem fomentar os diálogos fraternos com o povo, a exemplo de Jesus que procurava os elementos mais simples da sociedade para compartilhar as verdades eternas, através de uma generosidade extraordinária e que alimentava os mais humildes de coração, vertidos ao solo do sofrimento e das lutas diárias, mas portadores das riquezas do Espírito imortal. Mesmo porque, o personalismo, como fator de discriminação e pretensa cultura e moralidade social, afasta, compulsoriamente, os deserdados da sorte do mundo dos ambientes mais refinados do academicismo, o que vale por uma expulsão daqueles que, por sua simplicidade e humildade, poderiam enriquecer o ambiente da cultura do mundo com os valores eternos do Espírito. O ideal é que todos os Espíritas, dos mais simples aos chamados intelectuais, trocassem experiências através de círculos de estudo, na assistência fraterna ou nas reuniões públicas, de forma fraterna e solidária, conforme observação do Dr. Bezerra de Menezes descrita abaixo.

“Nada que lembre castas, discriminações, evidências individuais injustificáveis, privilégios, imunidades, prioridades. Amor de Jesus sobre todos, verdade de Kardec para todos. Em cada templo, o mais forte deve ser escudo para o mais fraco, o mais esclarecido a luz para o menos esclarecido, e sempre e sempre seja o sofredor o mais protegido e o mais auxiliado, como entre os que menos sofram seja o maior aquele que se fizer o servidor de todos, conforme a observação do Mentor Divino”.

(Bezerra de Menezes. Mensagem recebida pelo médium Francisco Cândido Xavier, na Comunhão Espírita Cristã, em 20-4-1963, em Uberaba, MG).

O perigo que ronda o espiritismo, e consequentemente, podendo afetar a proposta de retorno às bases cristãs, é, justamente, o personalismo, manifestação da vaidade humana e com raízes na cultura materialista, do imediatismo, que poderá forjar um aparato formalista, transitório, característica das religiões sociais. Essas manifestações são perigosas para o movimento Espírita da atualidade, porque a mente humana gravita, há séculos, em torno de patrimônios efêmeros, como a exposição exagerada da personalidade, a cultura da vaidade, o fascínio do ouro ou a ambição pelo poder, o que facilita a adesão de confrades imprudentes a essa corrente de pensamentos nocivos à prática Espírita. Encontramos, no pensamento de Herculano Pires, o sinal de alerta consubstanciado no seguinte pensamento:

 

“Um dos fatos marcantes do nosso tempo, do mundo contemporâneo, é que o poder das Religiões formalistas, humanas, não é mais religioso, mas simplesmente econômico, político e social” (Herculano Pires, Livro:Agonia das Religiões).

 

A bem da verdade, acreditamos que não poderíamos deixar de lembrar as considerações de Emmanuel a respeito daqueles espíritas que se incorporam ao Evangelho Salvador, por espírito de contenda, pois, no dizer do evangelista, estes “são dos maiores e dos mais sutis adversários do Reino de Deus”, e que se vestem, também, com a capa do personalismo. Vejamos, então, o pensamento do evangelista e que se encontra nas páginas do livro Pão Nosso.

 

“Não estão eles à procura de claridade divina para o coração. Apenas disputam louvor e destaque no terreno das considerações passageiras. Analisando as letras sagradas, não atraem recursos necessários à própria iluminação e, sim, os meios de se evidenciarem no personalismo inferior. Combatem os semelhantes que lhes não adotam a cartilha particular, atiram-se contra os serviços que lhes não guardam o controle direto, não colaboram senão do vértice para a base, não enxergam vantagens senão nas tarefas de que eles mesmos se incumbem. Estimam as longas discussões a propósito da colocação de uma vírgula e perdem dias imensos para descobrir as contradições aparentes dos escritores consagrados ao ideal de Jesus. Jamais dispõem de tempo para os serviços da humildade cristã, interessados que se acham na evidência pessoal. Encontram sempre grande estranheza na conjugação dos verbos ajudar, perdoar e servir. Fixam-se, invariavelmente, na zona imperfeita da humanidade e trazem azorragues nas mãos pelo mau gosto de vergastar. Contendem acerca de todas as particularidades da edificação evangélica e, quando surgem perspectivas de acordo construtivo, criam novos motivos de perturbação”(Emmanuel, Livro: Pão Nosso, psicografado por Chico Xavier).

 

Acreditamos que a análise dos principais pontos sobre o personalismo na dimensão Espírita esteja longe de encontrar um ponto final, haja vista, as ramificações de que encontra-se portador, como é o caso da forma como muitas instituições Espíritas vêm sendo administradas, da vaidade pessoal de médiuns, da postura de oradores Espíritas, da necessidade da auto evangelização, da publicação indiscriminada de obras mediúnicas, dos eventos espíritas pagos, ou mesmo, o problema do proselitismo.

 

Finalizando os apontamentos doutrinários a respeito do elitismo e do personalismo na dimensão Espírita, lembraríamos que Emmanuel é intransigente a esse respeito e se coloca frontalmente contra aqueles que preferem as atitudes elitistas, como bem expressou seu pensamento, na mensagem intitulada “Em que perseveras”:

 

“A atitude dos cristãos, na atualidade, porém, é muito diferente. Raríssimos perseveram na doutrina dos apóstolos, na comunhão com o Evangelho, no espírito de fraternidade, nos serviços da fé viva. A maioria prefere os chamados “pontos de vista”, comunga com o personalismo destruidor, fortalece a raiz do egoísmo e raciocina sem iluminação espiritual. [...] Antes de aplaudir os mais afoitos, procuremos saber se estamos com a volubilidade dos homens ou com a imutabilidade do Cristo”. (Emmanuel, Livro: Vinha de Luz, psicografia de Chico Xavier).

 

Diante do fantasma do personalismo que pode se transformar em fator de desunião na prática espírita, deixamos registrado uma mensagem fraterna aos companheiros de ideal. Considerando que a união de propósitos na seara espírita, pela edificação do corpo doutrinário e pelo ideal de servir desinteressadamente, representa um apelo constante da espiritualidade superior, o Espiritismo enseja-nos a oportunidade de nos completamos uns aos outros pelas nossas diferenças, pois se diferimos nos acessórios, concordamos sempre no essencial. Por isso mesmo, como ponto final em nossas considerações, destacamos, como fator de unidade, a prática da caridade entre os irmãos na fé Espírita, no sentido de elevar os pontos de vista, pois que devemos, em última análise, eliminar as arestas do nosso personalismo, na real compreensão de que todos somos simples obreiros, na busca e na conquista da verdade, sob o pálio da luz Cristã.

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